Arte por Token Não-Fungível: badalação cripto ou novidade que veio para ficar?

Alarde multimilionário não está necessariamente revolucionando a arte, a indústria dos colecionáveis ou o conceito de propriedade intelectual

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(Bloomberg Opinion) Um videoclipe de dez segundos disponível ao público, por US$ 6,6 milhões, e outra obra digital do mesmo artista – do mesmo modo impossível de ser tirada de circulação – prestes a ser vendida por milhões de dólares na Christie’s? Um vídeo de uma enterrada de LeBron James por US$ 200 mil? Se você, baby boomer, não consegue acreditar nisso, tudo bem. O fenômeno Non-Fungible Token (NFT), ou Token Não-Fungível, é real.

Mas sejamos claro aqui: o alarde multimilionário em torno dele não está necessariamente revolucionando a arte, a indústria dos colecionáveis ou o conceito de propriedade intelectual. É mais provável que uma comunidade específica cujos membros amealharam fortunas graças às criptomoedas (ou aqueles que estão tentando entrar no jogo) esteja gastando parte de sua riqueza para propagandear a tecnologia blockchain para que a chuva de dinheiro nunca acabe. E certos aplicativos NFT de fato merecem atenção, mesmo que esses aplicativos não sejam necessariamente aqueles que estão nas notícias hoje em dia.

O propósito de um NFT é o registro da “posse” de um objeto digital em uma blockchain. O token é “não-fungível” porque ele representa um objeto único e é por si só também único. Isso faz sentido no mundo dos jogos digitais, onde características e outras propriedades não podem ser usadas por aqueles que não as compraram, e onde se pode ganhar dinheiro, por exemplo, possuindo-se um autódromo virtual pelo qual os participantes das corridas precisam pagar um “aluguel”. Não surpreende que o maior mercado NFT esteja nesses itens relacionados a jogos.

Quando se trata de uma colagem digital ou um momento esportivo memorável, a venda a compra de um NFT envolvendo esses objetos não impede que eles sejam vistos ou compartilhados livremente por não proprietários. Pense nisso como uma implementação geeky do direito de se gabar ou uma maneira de canalizar apoio financeiro de fãs para artistas (ou atletas, ou qualquer um que estiver fazendo alguma coisa admirável do ponto de vista dos fãs).

Você também pode ver isso como um novo conceito de propriedade, que os comunistas sonhadores dos séculos passados apreciariam: é algo comum em todas as aplicações práticas, mesmo alimentando o criador e elogiando o apoiador.

No entanto, a comunidade blockchain e das criptomoedas, não tem nada de comunista e nem é altruísta por natureza – ela é formada em torno do ato de ganhar dinheiro (às vezes literalmente – pense na mineração de Bitcoins). Seu bem-estar depende do estímulo à adoção de aplicativos blockchain e isso exige uma comoção constante. O mercado de arte é perfeitamente adequado para proporcionar essa comoção: grandes vendas geram muita cobertura, especialmente se jornalistas e seus leitores ficam imaginando por que alguém pagaria tanto dinheiro por algo que simplesmente não vale isso para a maioria das pessoas. Até agora, o volume acumulado das vendas de “crypto art” está estimado em US$ 193 milhões; esse dinheiro proporcionou ao NFT uma publicidade valiosa na mídia americana, de sites de tecnologia a redes de TV.

Qualquer um ligado nas notícias de vídeos (nada interessantes) e colagens sendo vendidos por muito dinheiro, rapidamente descobrirá que o conceito NFT pode ser aplicado a direitos de propriedade sob tudo que se encontra sob o sol (ou, como a comunidade gostaria, aquela lua Bitcoin), de instrumentos financeiros a terras. Em algumas aplicações no mundo real, os NFTs podem até mesmo fazer muitas coisas boas. A venda de ingressos é uma delas: o uso dos NFTs permitiria, por exemplo, a organizadores de concertos limitarem os preços de revenda e tirar do negócio até mesmo os cambistas mais versados em tecnologia que usam robôs. Os tokens poderiam ser usados para vender vida selvagem digital para financiar esforços de conservação. Ou eles poderiam ser empregados para monitorar cadeias de abastecimento inteiras desde suas origens até o consumidor final, tornando o processo de criação de valor mais transparente.

Há razões poderosas para a tecnologia blockchain ainda não ter cativado o mundo, apesar de sua atratividade óbvia; ela tem problemas de escalabilidade, segurança, velocidade de transação e custo. Muitas das implementações competidoras estão tentando revolver esses problemas. Elas precisam de vitórias e apoiadores. Para essas firmas, o interesse das marcas e instituições tradicionais – a Christie’s, a National Basketball Association – na “New New Thing” é um golpe de sorte mesmo que um artista conhecido como Beeple, aquele dos US$ 6,6 milhões, não for o próximo Picasso e que os itens colecionáveis vendidos na NBA Top Shot não gozarem da popularidade duradoura dos cartões colecionáveis.

O mundo crypto produz, vive, respira e monetiza a badalação. Ele está usando meios radicalmente criativos para envolver o mundo não crypto nesse processo e está espalhando muito dinheiro por aí. Pode-se apenas esperar que isso acabe levando a benefícios tangíveis para muita gente – sejam essas pessoas frequentadores de concertos, consumidores com espirito de igualdade, conservacionistas ou aqueles a quem um título digital de propriedade possa poupar dias de tédio burocrático. Mas o momento de Beeple sob os holofotes já é um benefício para qualquer um que faz arte não adequada para o mercado tradicional: mesmo que nem todos venham a monetizar sua arte da maneira como ele fez, seu exemplo lhes dá a esperança de inclusão.

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