ESG

Bancos centrais enfim compreendem a necessidade de ações climáticas revolucionárias

Cabe aos políticos impor normas como o preço do carbono ou a proibição de investimentos em combustíveis fósseis

Bancos centrais podem desempenhar um papel ativo na redução dos riscos climáticos, permanecendo dentro de seu mandato
Por Kate Mackenzie
25 de Junho, 2021 | 06:53 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

(Bloomberg) Um tópico é certeiro para que a placidez fique de lado e banqueiros centrais se sintam justificados em abandonar sua linguagem cuidadosamente calibrada: uma conferência sobre o aquecimento global. É praticamente consenso que este é um problema grave.

Em uma cúpula do Banco de Compensações Internacionais esta semana, o evento climático de maior visibilidade até o momento, que reúne os principais executivos de bancos centrais, observamos os comentários mais estridentes até então, reconhecendo a natureza da crise e a necessidade de ação preventiva. Embora haja pouca conversa sobre as questões mais espinhosas, como a necessidade de imediatamente interromper a exploração de combustíveis fósseis, alguns palestrantes expressaram disposição de usar compras de títulos e outras ferramentas de política monetária para estimular o mundo a reduzir emissões.

Seria este um ponto de inflexão? Banqueiros centrais relutam em ultrapassar limites e a crítica é rápida a atacar quando aparentam fazê-lo. O ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, afirmou isso no mês passado, quando argumentou que os bancos centrais se concentram demais em riscos de mudança climática “para se manter relevantes” em vez de se preparar para futuras pandemias.

Na conferência Green Swan do BIS, a questão climática até agora tem sido tratada como apenas mais um risco. Precisamos apenas de novos métodos analíticos e dados, e talvez alguns ajustes na regulamentação financeira para padronizar e obrigar a divulgação de risco. Essa tem sido a visão predominante desde que os bancos centrais começaram a levar o aquecimento global a sério há cerca de cinco anos.

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A lógica é a seguinte: riscos financeiros relacionados a questões climáticas são, em grande parte, devido à falta de informações, portanto, reguladores devem simplesmente determinar as divulgações corretas. Uma vez que os dados estejam disponíveis, o mercado naturalmente precifica o risco e se ajusta apropriadamente. Cabe aos políticos impor normas como o preço do carbono ou a proibição de investimentos em combustíveis fósseis. Caso isso não ocorra, não cabe aos funcionários da política monetária ir além do desenvolvimento de cenários e testes de estresse.

A insistência em mais dados e análises está em desacordo com os perigos que enfrentamos. As implicações dos gases de retenção de calor acumulados na atmosfera não permitem meias providências, mesmo dentro de parâmetros estritamente definidos de salvaguarda da estabilidade financeira. Como medir o impacto de uma tonelada marginal de dióxido de carbono liberada, quando alguns cientistas acreditam que já estamos próximos de pontos de inflexão perigosos?

Um artigo publicado no mês passado por William Oman, economista do Fundo Monetário Internacional, e Romain Svartzman, que trabalha no banco central francês, conclui que é “inerentemente difícil” medir impactos sociais, econômicos e financeiros de migrações em massa induzidas por clima e conflitos. “Mesmo que riscos financeiros relacionados ao clima pudessem ser medidos, não está claro se conseguiríamos gerenciá-los”, disseram.

Estão equivocados os políticos que dizem que combater mudanças climáticas não é tarefa para bancos centrais. Uma responsabilidade central para a maioria deles é manter a estabilidade de preços e financeira, diretamente ameaçada pelo aquecimento global. Oman e Svartzman apontam que, se bancos centrais se limitarem a modelar cenários e desenvolver testes de estresse, enquanto esperam por uma ação política potencialmente mais forte de terceiros, as ameaças climáticas à estabilidade financeira apenas crescerão.

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Bancos centrais podem desempenhar um papel ativo na redução dos riscos climáticos, permanecendo dentro de seu mandato. Um artigo de janeiro de 2020 publicado pelo BIS tem algumas sugestões: coordenar com as autoridades fiscais e prudenciais, apoiar reformas para salvaguardar o clima no sistema financeiro internacional e empregar mudanças nas regras contábeis. Essas ações “sem dúvida serão difíceis de realizar”, afirmam os autores, mas são essenciais para preservar a estabilidade financeira e monetária.

Há sinais encorajadores de que os bancos centrais estão percebendo que a natureza nunca antes vista da questão climática significa que devem agir, em vez de apenas monitorar os dados e responder.

No ano passado, Isabel Schnabel, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, disse que os bancos centrais “não deveriam contribuir” para o problema das alterações climáticas, sugerindo que o BCE tem a responsabilidade não apenas de responder às alterações climáticas, mas também de as mitigar. O Banco da Inglaterra está planejando “esverdear” suas compras de títulos corporativos, e seu governador, Andrew Bailey, afirmou na conferência do BIS esta semana que seu Comitê de Política Monetária discutiu o clima pela primeira vez.

Na conferência, o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, também reconheceu que o BCE pode ter que limitar as compras de títulos de certos setores ou emissores por razões relacionadas ao clima. Foi uma declaração impressionante para o membro do conselho do BCE, que apenas seis meses atrás argumentou que tais compras deveriam aderir ao princípio da “neutralidade de mercado”. Sarah Bloom Raskin, ex-funcionária do Federal Reserve, desafiou a suposição dos bancos centrais e reguladores do mercado de que as atuais configurações de suas ferramentas são adequadas para extensas e custosas mudanças em andamento.

A mudança climática é diferente de qualquer um dos drivers de crises financeiras anteriores. Quando a economia e a atmosfera estão simultaneamente em mudança, devemos repensar gestão de risco e neutralidade de mercado. Banqueiros centrais que se aprofundaram na questão, invariavelmente, questionam se a abordagem de sempre é suficiente.

Há um caso coerente para tomarem medidas mais firmes. Autoridades não precisam se esquivar de suas responsabilidades climáticas por causa de acusações de complacência, limites de mandato ou exigências de precisão irrealista em análises. Os Larry Summers do mundo podem nunca compreender. Políticos conservadores, menos ainda. Felizmente, isso não importa.

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