Quais as próximas ambições de Fernando Simões na Simpar, que controla JSL e Movida

Gigante da área de logística já acumula 24 aquisições desde 2020; estratégia é atribuída, em larga escala, à visão expansionista do executivo filho do fundador

A JSL, que atua no setor de transporte rodoviário de carga, segue como a "menina dos olhos" da holding, que vem crescendo em diversos setores da economia
11 de Dezembro, 2023 | 05:00 AM

Bloomberg Línea — Onipresente. Essa é uma das descrições atribuídas a Fernando Simões, presidente da Simpar (SIMH3), holding que controla empresas como JSL (JSLG3), Movida (MOVI3) e Vamos (VAMO3). Filho caçula do falecido Julio Simões, fundador da JSL, o executivo encabeça uma estratégia ambiciosa que envolve não só a consolidação do mercado de logística mas também a expansão do grupo para segmentos como mobilidade e infraestrutura.

O último encontro com investidores promovido pela Simpar no final de novembro na sede da companhia, na zona sul da cidade de São Paulo, foi uma amostra do perfil de Simões. Ele subiu ao palco dez vezes para discursar e finalizar a apresentação dos CEOs e CFOs da holding.

Simões brinca que é “office boy” das empresas controladas pela Simpar. Para fontes e executivos ouvidos pela Bloomberg Línea, nenhuma grande decisão é tomada no grupo sem o seu aval – embora as controladas sejam independentes.

“Obstinado” também é uma das características atribuídas a Simões por fontes ouvidas pela reportagem. O perfil consolidador da Simpar é conhecido no mercado, o que se estende a Simões: ele não deve “descansar” enquanto não ganhar ainda mais market share nos segmentos em que atua.

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De 2020 a 2023, a Simpar realizou 24 aquisições. A Vamos, empresa de locação de veículos pesados, abriu capital na bolsa brasileira. A JSL tentou fusão com a líder em transporte de veículos zero quilômetro, a Tegma, em uma tentativa de criar uma gigante de logística rodoviária – o negócio, porém, não foi à frente.

De acordo com um executivo ligado ao grupo, que falou sob condição de anonimato, Simões tem um perfil centralizador e toma decisões importantes dentro das empresas da holding.

Outro executivo ligado ao grupo contou que Simões é “bem exigente” e “duro” no dia a dia e “acompanha todos os processos importantes das empresas” junto aos C-levels. Também toma à frente em conversas com stakeholders importantes como bancos e montadoras, acrescentou a fonte.

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Na visão de uma pessoa próxima ao grupo, que falou sob condição de anonimato, a Simpar cresceu demasiadamente em atividades de risco, com um nível de alavancagem elevado para o setor de transporte de carga. E grande parte dessa estratégia passa pela visão de Simões.

Atualmente, a Simpar controla sete empresas, tem 286 mil ativos operacionais e 47.000 funcionários. Encerrou o terceiro trimestre com receita líquida de R$ 33,9 bilhões e um lucro líquido de R$ 354 milhões.

A expansão tem sido relativamente bem avaliada por investidores. Os papéis da Simpar acumulavam alta de 30% em 2023 até a sexta-feira (8), embora estejam sendo negociadas abaixo do pico atingido em agosto. Já as ações da JSL dobraram de valor e têm ganho acumulado de 101% no período, enquanto as da Movida tinham alta de 54%; as ações da Vamos, por outro lado, caíam 25,9%.

Visão expansionista

Fernando Simões afirmou que a Simpar não tem ambições. “Trabalhamos todos os dias. O desenvolvimento do grupo tem sido reflexo do nosso trabalho, da nossa origem, do que a gente acredita. Em todos os nossos negócios temos um market share pequeno e um posicionamento estratégico diferenciado”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.

O executivo trabalha desde os 14 anos na empresa fundada pelo pai em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, mas muito antes disso já ficava próximo às atividades empresariais.

“Quando a JSL estava começando, um dos nossos passeios de domingo era ver meu pai dirigindo de casa em casa para verificar se as esposas e os filhos de funcionários precisavam de alguma coisa. Cresci vendo isso e passei a gostar do negócio, eu tinha uma admiração muito grande pelo meu pai e pela minha mãe”, contou.

Quando Fernando tinha 21 anos, seu irmão mais velho, que já trabalhava na JSL, decidiu sair da companhia para trabalhar em outro negócio. “Eu brincava com meu pai que eu era o único que tinha sobrado para tocar a empresa, era sua única opção.”

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Fernando Simões simpardfd

Segundo ele, Julio Simões tinha uma visão muito clara de que a empresa precisava de alguém da família liderando os negócios. Dos cinco filhos, apenas Fernando atua no grupo. “Não vejo a sucessão executiva sendo feita por algum familiar, mas sim por executivos [do mercado]. Mas tenho treinado meus filhos”, relata.

Dois dos quatro filhos de Fernando Simões trabalham em atividades ligadas à Simpar. Fernando Simões Filho, “Fernandinho”, é vice-presidente do conselho e lidera os comitês de sustentabilidade das empresas do grupo. Já Juliana Simões é diretora de gente e cultura da Simpar. “Meus filhos têm sido preparados para entender qual negócio eles querem estar”, diz o executivo.

Ele acrescenta ter contribuído com a formação e transformação dos negócios da holding. “Já venho fazendo a sucessão há um bom tempo. As empresas foram separadas, essa é uma maneira de fazer a sucessão. Hoje sou auxiliar de campo dos meus gestores, acompanhando de perto o capex que cada empresa faz e a geração de caixa dos negócios.”

Ao final do terceiro trimestre de 2023, a dívida bruta da holding era de R$ 6,6 bilhões e, a dívida líquida, de R$ 3,8 bilhões, com um caixa de R$ 2,7 bilhões. Com isso, a alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre o Ebitda está em 3,7 vezes.

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Na avaliação do analista do Santander, Lucas Esteves, a alavancagem é um tema sensível tanto na holding quanto em controladas como Movida e Vamos. “O grupo tem um perfil consolidador, mas é difícil avaliar se as aquisições foram acertadas pois muitas ainda precisam de maturação. Ao longo do tempo, considerando que não haverá novas aquisições, o grupo tende a desalavancar rapidamente.”

Ele acrescenta que as ações da Simpar estão descontadas, em parte, devido ao desempenho recente da Vamos, que tem tido peso relevante nas oscilações da holding mais recentemente. “Adicionalmente, vejo muito valor em JSL que não é reconhecido pelo mercado, principalmente por questões de liquidez”, aponta.

Em sua visão, companhias fechadas do grupo como Ciclus e Automob escapam ao papel. “O mercado tem pouca visibilidade e dados para fazer conta, nenhum valor [das ações] é atribuído a esses negócios”, diz Esteves.

Desconfiança do mercado

Recentemente, o mercado ficou mais atento ao desempenho da Movida, que atua no segmento de locação de veículos leves. Hoje, a empresa é a segunda maior do setor, atrás apenas da Localiza (RENT3).

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No terceiro trimestre do ano, a companhia reportou um prejuízo líquido de R$ 65,7 milhões, resultado impactado pelo aumento das despesas financeiras em meio à elevação das taxas de juros. No acumulado do ano, a empresa registrou prejuízo de R$ 62,5 milhões.

A Movida encerrou o terceiro trimestre com uma frota total de 214 mil carros, com redução no segmento rent a car (RAC, negócio de diárias) e aumento dos volumes na terceirização (voltada a empresas).

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O manejo da frota é essencial para a rentabilidade na locação de veículos. No início da pandemia, quando os preços dos automóveis tiveram um aumento brutal – o que foi acompanhado de uma forte restrição na oferta, principalmente de modelos de entrada –, a Movida tomou a decisão de comprar veículos mais caros, especialmente SUVs.

Enquanto isso, suas principais concorrentes reduziram as compras e concentraram a estratégia de renovação de frota em modelos de entrada, ainda que a oferta estivesse fortemente restrita pelas montadoras.

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Para uma pessoa próxima à Movida, que falou sob condição de anonimato, a decisão de comprar carros mais caros teve um peso importante de Simões, mas a conta agora não fecha.

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Segundo uma outra fonte do mercado, a empresa agora tem a necessidade de vender carros com margens menores para conseguir renovar sua frota.

De acordo com um executivo de um banco de investimentos, que falou sob condição de anonimato porque as discussões são privadas, a Movida vinha se alavancando demasiadamente, descolando os resultados da parte operacional. Segundo a fonte, diante do endividamento, a empresa acabou ficando comprometida com o pagamento das despesas financeiras.

Daqui para frente, a expectativa do mercado é que os preços dos automóveis continuem elevados, assim como as taxas de juros – embora a tendência seja de queda gradual. Isso deve trazer pressão sobre a operação da Movida, afirma uma fonte do mercado que prefere não ser identificada.

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Para Simões, a estratégia de compra de carros mais caros no início da pandemia foi acertada. “Hoje, a Movida é uma companhia de 214 mil carros e isso só foi possível porque a empresa comprou o que tinha disponível no mercado. Trouxemos 1,2 milhão de novos CPFs no período de 18 meses. Se não tivéssemos comprado [esses veículos], teríamos dito não para o cliente”, disse ao final da apresentação dos executivos da Movida durante o Simpar Day.

Ele acrescentou que a empresa desmontou o mix de carros mais caros. “Hoje o mix é mais barato, com automóveis de entrada. A receita não diminui, mas o capex caiu. Compramos o mix que desejamos e precisamos.”

Em relatório recente, o Itaú BBA afirma que os resultados do terceiro trimestre da Movida “foram mais uma evidência da estratégia da empresa para melhorar suas operações”. O banco cita yields (rendimentos) mais elevados trimestre contra trimestre para as divisões de rent a car e gestão de frotas, paralelamente à queda nos preços dos veículos comprados “à medida que a Movida ajusta sua frota de RAC para uma mais eficiente.”

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Por outro lado, um relatório da Genial Investimentos aponta que a conquista de uma frota de 214 mil carros “custou caro” para a Movida. “Embora tenha chegado próximo à meta de 260 mil carros, vimos os resultados serem consumidos por altos níveis de depreciação e alavancagem”, disseram os analistas da casa.

Menina dos olhos

A JSL, primeira empresa do grupo a abrir capital em 2010, continua sendo a “menina dos olhos” da Simpar, afirma uma fonte próxima à holding. Considerado o maior grupo logístico do país, vem ampliando as suas áreas de atuação.

O CEO Ramon Alcaraz veio da concorrente Fadel, comprada pela JSL em 2020. “Temos apenas 2% de market share no setor de logística. O potencial de mercado é infinito”, disse o executivo em entrevista à Bloomberg Línea.

Ele salientou, porém, que a JSL não fará aquisições apenas para crescer. “As empresas adquiridas precisam complementar nosso portfólio, com culturas similares à nossa.”

Relatório recente do Santander sobre a JSL aponta uma visão favorável para a empresa, baseada em três pilares: grande oportunidade de consolidação do mercado de logística terceirizada no Brasil, dada a sua fragmentação e baixa penetração; sólidas vantagens competitivas que deverão continuar gerando bons retornos; e um valuation atraente.

O Santander tem recomendação de compra para os papéis da JSL e preço-alvo de R$ 15,00 (estimativa para o ano de 2024), o que implica um potencial de valorização de 79% em relação ao preço da ação em setembro, data de publicação do relatório.

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Por outro lado, o documento aponta para os riscos de execução da estratégia de fusões e aquisições. “Apesar de seu sólido histórico de M&A, acreditamos que uma desaceleração no ritmo de novas aquisições e integração das empresas adquiridas poderá prejudicar o desempenho da ação da JSL”, diz o relatório.

Diversificação

A Simpar vem crescendo em diferentes áreas. A CS Infra, braço de infraestrutura do grupo, participou de alguns leilões e arrematou contratos envolvendo terminais portuários; manutenção de rodovias; implantação e operação de corredores de ônibus do tipo BRT em Sorocaba (SP); modernização e operação do mercado municipal de Cuiabá, no Mato Grosso; além da gestão de um dos maiores aterros sanitários da América Latina.

Por meio da CS Frotas, subsidiária da Movida, o grupo participa ainda de licitações públicas para locação de veículos. Segundo uma fonte do mercado ouvida pela reportagem, a empresa é altamente competitiva, com lances agressivos de preços.

Ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, a JSL se pronunciou publicamente sobre o interesse de comprar os Correios, cujo processo de desestatização foi cancelado na atual gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Os analistas da Genial reforçam em relatório que executivos buscaram reafirmar durante o Simpar Day que o grupo está focado em rentabilidade e na gestão de seus passivos. “Em nossa visão, a desalavancagem é fundamental para aumentar a confiança dos investidores”, disseram no documento.

Em 2021, a Simpar traçou um planejamento para suas controladas até 2025. A JSL já atingiu 88% da meta de R$ 10,8 bilhões de receita bruta. Movida e Vamos alcançaram, respectivamente, 82% e 60% das metas de tamanho de frota até 2025.

Simões destacou que o grupo tem pessoas capacitadas para continuar o ciclo de geração de novos negócios. “Para onde nós vamos? Temos certeza que é possível fazer consolidação de concessionárias de veículos leves, comprar mais empresas de logística”, disse a investidores. “Temos nos transformado organicamente, não vamos nos perder”, afirmou.

*Matéria atualizada às 11h24 de 11 de dezembro para esclarecer a atuação de Fernando Simões Filho.

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Juliana Estigarríbia

Jornalista brasileira, cobre negócios há mais de 12 anos, com experiência em tempo real, site, revista e jornal impresso. Tem passagens pelo Broadcast, da Agência Estado/Estadão, revista Exame e jornal DCI. Anteriormente, atuou em produção e reportagem de política por 7 anos para veículos de rádio e TV.