Alpargatas, ‘patinho feio’ do portfólio da Itaúsa, está em recuperação, diz Setubal

CEO da holding de investimentos do Itaú Unibanco disse em call com analistas que o pior já passou na operação da dona da Havaianas: ‘novo CEO entrou bem no jogo’

Loja da Havaianas na rua Oscar Freire em São Paulo, marca da Alpargatas que tem a Itaúsa como principal acionista
19 de Março, 2024 | 05:49 PM

Bloomberg Línea — Dona da Havaianas, uma das marcas mais populares do Brasil no exterior, a Alpargatas (ALPA4) está em ritmo de recuperação de vendas após uma troca de CEO e ajustes operacionais decorrentes de perdas com o plano de internacionalização, segundo o CEO da Itaúsa (ITSA4), Alfredo Setubal, em conversa com analistas nesta terça-feira (19).

A holding de investimentos do Itaú Unibanco (ITUB4) detém uma fatia de 30% da Alpargatas, sendo a maior acionista da companhia. A segunda maior posição é a da Cambuhy Alpa Holding, da família Moreira Salles, fundadora do Unibanco, com 23,77%, segundo dados da B3.

Setubal reconheceu que a Alpargatas tem sido o “patinho feio” do portfólio da Itaúsa com tropeços na operação internacional, como atrasos de entrega e cancelamentos de encomendas, além de problemas de gestão de estoque e dificuldades para ingressar no mercado norte-americano, com perdas em aquisições (Rothy’s e Ioasys).

No início de fevereiro, a companhia centenária (107 anos), um dos principais players do setor nacional de calçados, ganhou um novo CEO com a chegada de Liel Miranda (ex-Mondelez), que sucede Luiz Edmond (interino) e Roberto Funari, que deixou o cargo em abril do ano passado.

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“Tudo indica que 2024 será um ano melhor para a Alpargatas após um processo seletivo e cauteloso do CEO. O processo de reestruturação foi iniciado, já há uma redução de SKU [sigla para cada tipo de produto em estoque], de custo de capital de giro e de dívida. Miranda entrou bem no jogo. A nova coleção já foi bem recebida”, disse Setubal.

Apesar do início de recuperação dos indicadores, na bolsa, ainda há um longo caminho a percorrer. A ação preferencial acumula alta de quase 10% em 12 meses, mas ainda está 85% abaixo do pico em agosto de 2021.

Em 2023, a Alpargatas reportou prejuízo de R$ 1,8 bilhão, emendando cinco trimestres consecutivos no vermelho. O quarto trimestre foi o pior da série (perda de R$ 1,6 bilhão) devido ao impacto negativo da desvalorização contábil dos últimos ativos adquiridos (impairment) pela companhia.

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“É difícil entrar no mercado dos EUA. Já foram quatro tentativas da Alpargatas, que não acertou. Teve mais despesas do que receitas”, observou o CEO da Itaúsa.

O prejuízo bilionário do quarto trimestre foi impactado pela redução do valuation da marca californiana de calçados Rothy’s (baixa de R$ 1,5 bilhão), cuja participação de 49,9% foi adquirida em 2021. Também houve uma baixa contábil de R$ 112 milhões pela aquisição da empresa mineira de softaware Ioasys.

“Compramos a Rothy’s em um momento errado, antes da queda dos valuations na bolsa. Tivemos que fazer agora esse ajuste contábil atualizando o quanto ela vale realmente hoje. Está abrindo novas lojas em um ritmo menor do que previa o business plan, mas acreditamos na pegada ecológica e sustentável da marca, que ainda dará frutos.”

Já a CFO da Itaúsa, Priscila Grecco, destacou que o resultado da Alpargatas em 2023 também foi afetado pelo ambiente econômico de aperto monetário para conter a inflação e do consequente maior endividamento das famílias, com renda mais comprometida para o consumo.

“Para 2024, esperamos um cenário mais benigno com a continuidade dos cortes na taxa Selic [atualmente em 11,25% ao ano], que deve fechar o ano em 9,25% ao ano. O PIB deve crescer um pouco mais de 2%, puxado mais pelo setor de serviços do que pelo agronegócio. E o câmbio deve ficar em torno de R$ 5 ou abaixo disso”, citou a CFO.

Desinvestimento na XP e dobro de dividendo

Além da Alpargatas, a Itaúsa recebe dividendos referentes às participações em outras empresas não-financeiras: Dexco (DXCO3), em que detém 38% do capital, CCR (CCRO3), com 10%, Copa Energia, com 49%, Aegea, com 13%, e NTS, com 8%. Esses recursos são usados para cobrir sobretudo despesas da holding. O Itaú Unibanco responde por 90% do portfólio da Itaúsa.

Em 2023, a holding teve lucro de R$ 14,1 bilhões, o maior da série histórica. O valor foi 4% maior na comparação com o ano anterior, puxado principalmente pela participação (37%) detida no Itaú Unibanco, que lucrou R$ 35,6 bilhões no ano passado e pagou R$ 11 bilhões em dividendo extraordinário.

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O lucro recorde da Itaúsa também refletiu o avanço na desalavancagem, com redução de dívida e alongamento do perfil de vencimentos, graças à venda da fatia acionária remanescente na XP (XP). O desinvestimento, concluído em dezembro, reforçou o caixa em R$ 3,8 bilhões, com ganho de R$ 1,7 bilhão.

Com ajuda desse evento não recorrente, a Itaúsa voltou a superar seu patamar histórico de distribuição de proventos (entre 40% e 50% do lucro), atingindo R$ 8 bilhões (ou R$ 0,78/ação), o dobro do valor pago em 2022. Isso representa um payout (percentual do lucro distribuído) de 62% e um dividend yield (rendimento) de 8,4%.

Antes da pandemia, entre 2016 e 2018, o payout chegou a 90%, o que reforçou a fama da Itaúsa como uma das maiores pagadoras de dividendos do país. Nos primeiros anos de covid, essa proporção chegou a cair para 25%, a mínima permitida pela legislação. A Itaúsa tem quase 1 milhão de pessoas físicas como acionistas.

Setubal disse que o nível do payout em 2024 depende principalmente do tamanho do excesso de capital contabilizado pelo Itaú Unibanco e da possibilidade de distribuição de dividendo extraordinário, como ocorreu em 2023, quando o banco enfrentou um cenário de baixa demanda por crédito diante do juro e da inadimplência em alta.

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Concorrência com Nubank

O CEO da Itaúsa disse esperar que o Itaú mantenha a tendência de alcançar uma rentabilidade em torno de 20%. Em 2023, o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) - indicador da capacidade de rentabilizar seu capital - do maior banco da América Latina atingiu 21,2%, um dos maiores do setor.

“O Itaú tem dado um retorno de 20% e isso deve ser mantido, não sei se por mais dez anos”, respondeu Setubal a um analista do Goldman Sachs sobre a trajetória esperada para o indicador.

O executivo acrescentou que o banco tem conseguido reduzir custos e a avançar na competição com bancos digitais, após contratar cerca de 15 mil pessoas para sua área de tecnologia. Ele disse considerar o Nubank (NU) o player melhor posicionado em termos de estratégia, capital e tecnologia.

“O Nubank é um banco muito focado em cartão de crédito, tem de 70 milhões a 80 milhões de clientes no Brasil. É um player bastante consolidado e, entre os bancos digitais, o mais bem posicionado”, disse Setúbal em conversa com jornalistas.

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Ele também foi questionado sobre a possibilidade de uma consolidação dos bancos digitais por grandes instituições financeiras tradicionais.

“Acho difícil. Há um problema de cultura organizacional. Não sei, pode acontecer de fintechs se juntarem, buscando complementar a oferta de produtos”, disse o CEO da Itaúsa.

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Sobre um eventual aumento do portfólio da Itaúsa ou compra de novas participações das atuais sete investidas, Setubal disse que, por enquanto, a holding não espera realizar aquisição, mas está atenta ao surgimento de oportunidades em setores como agronegócio. Também não há nenhuma nova decisão de desinvestimento.

“O Brasil tem um risco elevado ligado ao déficit fiscal, um cenário que dificulta novos investimentos”, avaliou.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.