Mercado cripto troca memecoins por ativos reais um ano após colapso de US$ 19 bilhões

Com o bitcoin longe das máximas e menor alavancagem, o setor abandona a onda especulativa e expande o uso da tecnologia blockchain para ações e commodities

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Bloomberg — Há um ano, o mercado de criptomoedas estava em alta, impulsionado pelo apoio da Casa Branca, pelo entusiasmo de Wall Street e pelas expectativas de uma nova era de ouro. Em seguida, ocorreu a queda histórica de outubro, que eliminou um valor recorde de US$ 19 bilhões em apostas alavancadas em um único dia, desencadeando uma retração em todo o setor e expondo a fragilidade de uma estrutura de mercado que supostamente estava amadurecendo.

Doze meses depois, o bitcoin, principal indicador do mercado, permanece mais de 30% abaixo de sua máxima histórica. As tentativas de uma recuperação sustentada têm fracassado repetidamente, e os operadores têm demorado a reconstruir as posições alavancadas que outrora impulsionaram os maiores booms do mercado de criptomoedas.

O total de posições em aberto em futuros perpétuos vinculados ao bitcoin — um indicador do apetite dos operadores por apostas alavancadas — situava-se em cerca de US$ 45 bilhões há um ano, de acordo com dados da CryptoQuant. Esse valor caiu para menos da metade nos seis meses após a queda.

A recente recuperação do bitcoin acima de US$ 80.000 restaurou um pouco da confiança, mas o volume de posições em aberto do maior token do mundo permanece bem abaixo de seu pico.

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Ainda assim, o clima de desânimo não impediu que bancos e grandes corretoras experimentassem ativos digitais. Mais importante do que saber se a alavancagem retornará é se o próprio mercado se tornou mais resiliente, afirmou Julia Zhou, presidente da Caladan, formadora de mercado de criptomoedas.

“Mais de US$ 19 bilhões em posições alavancadas foram liquidadas em 24 horas, mas a questão mais grave foi a rapidez com que a liquidez disponível desapareceu quando o mercado mais precisava dela”, disse Zhou.

Hoje, embora os operadores compreendam melhor os riscos, “o mercado continua altamente fragmentado, e a liquidez ainda pode se deteriorar rapidamente”.

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O argumento a favor de um mercado mais forte atualmente é que a alavancagem está menor, as corretoras oferecem ativos menos correlacionados e algumas plataformas reforçaram os seus sistemas de liquidação.

Enquanto isso, os investidores não perderam o gosto pelo risco, mas se voltaram para novas fronteiras. Os mercados de previsão estão atraindo multidões, e os futuros perpétuos, ou “perps” — há muito um elemento básico da negociação de criptomoedas —, estão sendo usados para fazer apostas alavancadas em ações, commodities e outros ativos do mundo real.

Dito de outra forma, alguns dos próprios mecanismos que ajudaram a transformar as criptomoedas em um fenômeno especulativo estão encontrando usos muito além dos tokens para os quais foram projetados: Wall Street está avançando com stablecoins, tokenização e a infraestrutura financeira construída sobre a tecnologia blockchain.

O volume de posições em aberto em futuros perpétuos para ativos do mundo real, praticamente inexistente há um ano, hoje chega a mais de US$ 17 bilhões, de acordo com dados da DefiLlama. Grande parte disso tem sido impulsionada pela Hyperliquid, a corretora offshore de criptomoedas, que foi pioneira na vinculação de perps a ações e commodities.

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Essa mudança “revela uma trajetória de crescimento de pessoas que buscam rendimento e liquidação em mercados que nunca fecham, e não de pessoas que perseguem uma narrativa ou uma memecoin em alta”, afirmou Adam McCarthy, chefe de pesquisa da corretora LO:TECH.

A busca incessante por retornos mais elevados ajudou a tornar o bitcoin o ativo financeiro com melhor desempenho do mundo desde sua criação, há 17 anos. Para participantes de longa data do mercado de criptomoedas, a crescente institucionalização do setor e o correspondente surgimento de novas alternativas — desde futuros perpétuos até apostas esportivas — são vistos como um ponto de inflexão.

Em um relatório divulgado nesta semana, a QCP Capital afirmou que espera que o bitcoin permaneça dentro de uma faixa de US$ 80.000 a US$ 90.000 no quarto trimestre. Os fundamentos estruturais das criptomoedas permanecem intactos, mas os fluxos por si só não são suficientes sem um catalisador dominante, escreveu a empresa.

Daqui a um ano, o mercado parecerá fundamentalmente diferente, afirmou a Galaxy Digital em um relatório na sexta-feira. Apesar do fracasso da regulamentação de criptomoedas nos EUA em setembro, os reguladores federais estão avançando com planos para fortalecer as negociações por meio de diretrizes sobre o uso de garantias e margens.

Tudo isso significa que um setor nascido de um idealismo disruptivo e definido pelo excesso especulativo está se tornando cada vez mais integrado ao establishment financeiro que antes buscava substituir. E com a inteligência artificial dominando grande parte da imaginação do mercado, as criptomoedas enfrentam um futuro diferente daquele vislumbrado em seus primeiros anos de expansão: menos uma rebelião contra Wall Street e mais um recanto dentro dela.

“Em grande parte, o mercado que entrou em colapso em 10/10 já não existe mais”, escreveu Lucas Tcheyan, vice-presidente de pesquisa da Galaxy Digital. “O que o substituiu está apenas começando a ser precificado.”

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