Vidro triplo e árvores contra o vento: como o clima mudou o 1º hotel Kempinski no Brasil

Rede mais antiga de hotéis de luxo da Europa adia para 2027 a estreia em Canela depois que as enchentes do RS atrasaram o cronograma; grupo terá segunda unidade em antiga fazenda de coco alagoana, com outro modelo de negócio

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Bloomberg Línea — As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul não chegaram ao topo da laje de rocha onde está sendo erguido o primeiro hotel da alemã Kempinski no Brasil, a 700 metros de altitude, em Canela, na Serra Gaúcha. Ainda assim, deixaram a obra sem aço e sem concreto durante boa parte daquele ano, atrasaram o cronograma e levaram os sócios brasileiros a redesenhar o projeto para resistir a ventanias e tempestades.

Fundada em Berlim em 1897, a rede suíço-alemã que se apresenta como a mais antiga de hotéis de luxo da Europa previa entregar as primeiras 128 residências do Kempinski Laje de Pedra entre julho e agosto de 2026, como noticiou a Bloomberg Línea em março de 2024.

A inauguração passou para 2027. Mesmo com o atraso, os sócios assinaram a compra de uma fazenda no litoral de Alagoas para a segunda unidade da bandeira no país.

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O choque chegou pela cadeia de fornecedores, segundo José Ernesto Marino Neto, que comanda a incorporadora LDP Canela ao lado de José Paim de Andrade Jr. e fundou a consultoria em investimentos hoteleiros BSH International. O movimento do restaurante 1835 Carne & Brasa, que segue aberto durante a obra, caiu mais da metade.

“Nós fomos afetados pelas enchentes, não patrimonialmente, porque estamos em cima de uma laje de pedra a 700 metros de altitude, mas toda a cadeia produtiva da construção civil foi afetada”, disse Marino Neto à Bloomberg Línea.

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O executivo lembra que o governo federal estendeu por três anos, sem juros, os prazos de pagamento da dívida gaúcha, por admitir que a recuperação levaria ao menos esse tempo. Segundo ele, parte da economia do estado ainda não voltou ao normal.

Vidro triplo e barreiras contra o vento

A enchente também obrigou os sócios a revisar o projeto do próprio hotel. Marino Neto, que dedicou sua dissertação de mestrado aos riscos de investimentos em hotéis, conta que não esperava um evento desse porte no meio da obra.

“Achava que não teria muitas surpresas. De repente, aparece uma enchente no meio do caminho, que a gente não imaginava”, afirmou.

Técnicos do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e da USP (Universidade de São Paulo) simularam, com a equipe de engenharia do empreendimento, cenários de vento e chuva sobre o complexo. As janelas, todas com vidro duplo no mínimo, passaram a ter vidro triplo nos pontos mais expostos.

O paisagismo, assinado por Sergio Santana, virou ferramenta de proteção. Áreas sem vegetação prevista vão receber espécies que reduzem a velocidade do vento, e fachadas de madeira instaladas uma atrás da outra vão amortecer as rajadas até o teatro do complexo. Na véspera da entrevista, segundo o diretor, a região registrou ventos de 150 km/h.

Valorização mesmo com o atraso

O empreendimento soma investimento superior a R$ 1 bilhão, considerando obra e desenvolvimento imobiliário, informou a empresa. Pelo cronograma descrito por Marino Neto, as primeiras 128 residências ficam prontas em dezembro de 2027, as 195 previstas, em meados de 2028, e o hotel, com 156 quartos, em dezembro de 2028.

A primeira etapa já está concluída. O edifício Bosque, com 16 mil metros quadrados, abriga o restaurante e um auditório. O restante da construção está com um consórcio entre a gaúcha MCW Engenharia, que ergueu o Bosque, e a BN Engenharia, do grupo paulista Bueno Netto. Reclamações de vizinhos levaram à troca das detonações de rocha por cargas menores, o que alongou o trabalho.

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O complexo vai receber ainda o primeiro ambulatório de telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein no Rio Grande do Sul. A parceria está firmada, e a operação começa com a abertura do empreendimento, ainda sem data, informou a empresa.

As residências, de 50 a 216 metros quadrados, são entregues decoradas e equipadas. Metade foi vendida inteira, sem recorrer às cotas de 25%, que dão direito a 13 semanas de uso por ano. Os proprietários poderão alugar a unidade pela própria rede ou trocar estadias por meio da plataforma internacional THIRDHOME.

Os preços já subiram mais de 40%, segundo Marino Neto. Depois do acordo com o Einstein, surgiram compradores que pretendem morar no complexo, e não apenas passar temporadas.

Do alto da serra ao litoral

A Kempinski acompanhou de perto a crise. A rede suspendeu em 2024 e 2025 as taxas cobradas dos sócios por orientação de projeto e preparação da abertura, e retomou a cobrança neste ano. O contrato entre as partes tem duração de 50 anos.

“Eles se sensibilizaram e nos deram as mãos”, disse o diretor.

A parceria vai se estender ao Nordeste, plano já citado em 2024 por Andrade Jr., que também é CEO da gestora MaxCap. Os dois sócios assinaram contrato de compra de uma antiga fazenda de coco no sul de Alagoas, com 850 mil metros quadrados e 900 metros de praia. A área passa por estudos ambientais, ainda sem data de abertura.

O modelo de negócio será o inverso do adotado em Canela. No litoral alagoano, o hotel será construído e posto em operação antes de qualquer residência ir à venda, segundo Marino Neto. Os sócios querem um escritório de arquitetura internacional sem presença no Brasil, em parceria com uma firma local, e estudam outros dois projetos, um deles no interior de São Paulo.

Executivos da rede alemã afirmaram aos sócios que o Laje de Pedra deve figurar entre as cinco principais propriedades do grupo no mundo, segundo Marino Neto.

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