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Bitcoin pode repetir sua corrida de alta vista em 2020?

Especialistas dizem que cenário macroeconômico atual diverso dificulta uma análise mais conclusiva sobre moeda reproduzir desempenho em 2022

Escassez e resistência ao armazenamento e transporte são pontos favoráveis para ter Bitcoin no portfólio, diz analista
Tempo de leitura: 4 minutos

Por Gino Matos para Mercado Bitcoin

São Paulo — Com o coronavírus ainda circulando e a cadeia de suprimento de bens se recuperando dos atrasos decorrentes da pandemia, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro deste ano, agravou um ambiente econômico já difícil. O cenário macroeconômico global aponta para o risco de um período de forte recessão, com crise de abastecimento no mercado de commodities, principalmente petróleo e grãos.

O Bitcoin, que até o fim de 2021 era o refúgio de investidores, teve o mesmo destino dos ativos de risco em meio a um período econômico turbulento: quedas bruscas nos preços. É possível, porém, que a maior criptomoeda em valor de mercado repita sua façanha de 2020, durante o início da crise gerada pela pandemia?

Bitcoin como reserva de valor

Em março de 2020, o mercado financeiro global foi atingido de forma drástica quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o problema do coronavírus como pandemia. Em menos de uma semana, o preço do Bitcoin recuou quase 50%, acompanhando quedas igualmente significativas nos índices das finanças tradicionais. O evento ficou conhecido como Corona Crash.

A diferença entre os ativos de risco, no entanto, mostrou-se no tempo de recuperação. Enquanto o S&P 500, por exemplo, demorou três meses para voltar ao patamar de preço pré-pandemia, o Bitcoin levou pouco menos de dois meses. Não apenas isso: a maior criptomoeda em valor de mercado valorizou 1.000% em um ano após o Corona Crash.

Apesar da forte recuperação exibida pelo Bitcoin entre 2020 e 2021, o cenário econômico em 2022 se difere em muitos aspectos. Política de aumento de juros pelo Federal Reserve (Fed), o fim do quantitative easing e a forte inflação são algumas das drásticas mudanças ocorridas em tão pouco tempo.

Além disso, a correlação entre o Bitcoin e o mercado de ações nunca esteve tão alta. Em uma escala de -1 até 1, onde -1 é o mínimo de correlação e 1 é o máximo, Bitcoin e S&P 500 guardavam uma relação nos preços de 0,89 em 1º de junho, apontam dados do The Block Research. Esse valor é considerado muito elevado.

O problema é que uma das razões que levaram investidores até o mercado cripto está, justamente, na falta de correlação entre digital e tradicional.

Uma avaliação otimista

Mesmo em um ambiente macroeconômico diferente, é possível que o feito do Bitcoin se repita no cenário atual, na visão de Richard Rytenband, economista e CEO da Convex Research. Rytenband defende a tese da criptomoeda como reserva de valor.

“A dinâmica hoje da economia global, com desaceleração, combinada a grandes ondas inflacionárias e muita incerteza, favorece a exposição a ativos reais e que não podem ser inflacionados, como o ouro e o Bitcoin”, aponta o executivo da Convex explicando seu otimismo com o ativo digital neste momento.

A escassez e a resistência ao armazenamento e transporte também são pontos favoráveis para ter Bitcoin no portfólio, acrescenta Rytenband. O mais forte, contudo, é que um ecossistema continua se expandindo em torno da criação de Satoshi Nakamoto mesmo durante o mercado de baixa.

“A Web3 é um ecossistema desenvolvido em torno do Bitcoin, onde custos, riscos e captura de valor são distribuídos entre criadores e usuários”, diz. Ele acrescenta ainda que, no curto prazo, o preço do criptoativo está distorcido em relação aos seus fundamentos, algo que também aconteceu em março de 2020.

O outro lado

Apesar das razões positivas que desenham o Bitcoin como uma forte escolha durante o furacão econômico que o mundo vive, existem também os pontos negativos. Os entraves podem estar, justamente, nas diferenças de cenário entre 2020/2021 e 2022.

Luis Fernando Roxo, analista da casa de análise O2 Research, não acredita que a maior criptomoeda em valor de mercado possa repetir seu rali de alta no árido e seco mercado financeiro atual. “Na pandemia, os bancos centrais baixaram os juros para incentivar a economia. Como o Bitcoin é um ativo de risco, ele se valorizou enquanto os juros caíam.”

O movimento atual, contudo, vai na direção contrária, destaca Roxo. Enquanto os juros continuarem subindo sem previsão de inversão na curva de aumento, não haverá espaço para uma alta significativa exibida pelo Bitcoin.

E a correlação?

Investidores do mercado de criptoativos se mostram insatisfeitos com a correlação de preços exibida por Bitcoin e índices do mercado tradicional, como o S&P 500. Rytenband aponta que a entrada de investidores institucionais e do varejo vindos do mercado acionário foi, de certa forma, um fator que fortaleceu a correlação desses dois mercados nos últimos meses.

O lado positivo ressaltado pelo economista é que correlação é um estado momentâneo. Por enquanto, os mercados tradicional e digital estão correlacionados, o que não significa que estarão assim para sempre. “Não se trata de uma métrica fixa, pelo contrário: correlações tendem a se quebrar com muita frequência e, para o investidor desatento, podem gerar prejuízos.”

Roxo compartilha da visão de Rytenband. Com o aumento dos juros, é possível que investidores abandonem as criptomoedas temporariamente, já que essa classe de ativos não tem seu rendimento atrelado a juros. Então, é possível que esse movimento desacople os mercados tradicional e digital.

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