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Fernando Barrozo: Os ensinamentos de Warren Buffett

Leitura obrigatória para qualquer interessado no mercado, a carta anual do fundador da Berkshire Hathaway traz lições de vida e de investimentos

Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Línea Ideias — Mais do que obrigatória, a leitura da carta anual da Berkshire Hathaway, escrita por Warren Buffett, é uma das mais prazerosas que se pode encontrar no mercado financeiro. A começar pela forma como ele se dirige aos detentores de ações da empresa (“acionistas, sócios, parceiros”), se colocando como alguém que está trabalhando para eles, atuando como um custodiante confiável de suas poupanças. Diz que sua posição carrega a responsabilidade de lhes reportar o que ele gostaria de saber se os papéis estivessem invertidos.

Assim que é publicada, a tradicional carta é dissecada por analistas de mercado, investidores e jornalistas atrás de detalhes do que aconteceu ao longo do ano anterior, que investimentos foram feitos e aumentados, e quais foram reduzidos, como ficou a posição em caixa e como as companhias investidas e o portfólio da empresa se comportaram. Muito a respeito disso já foi amplamente publicado e meu foco aqui será outro: os ensinamentos que a carta sobre 2021 traz, em termos de investimentos e mesmo de vida.

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Buffett define a si mesmo e a Charlie Munger, seu sócio histórico, não como stock-pickers (selecionadores de ações, na tradução livre), mas sim como business-pickers (de negócios). Com isso, quer dizer que buscam ser investidores relevantes em negócios que reúnam vantagens econômicas duradouras e gestores de primeira classe. Compram ações baseadas nas suas expectativas de desempenho de longo prazo dos negócios, e não porque as enxergam como veículos para movimentos de curto prazo do mercado.

A história da Berskshire

Na carta deste ano, Buffett conta a história da Berkshire Hathaway, originalmente criada através da fusão de duas companhias têxteis da Nova Inglaterra, em 1955. O negócio teve como advisor a Lehman Brothers (!) e prometia a formação de uma das mais fortes e eficientes organizações da indústria têxtil. Nos nove anos seguintes, no entanto, a companhia teve prejuízo e seu valor caiu de US$ 51 milhões para US$ 22 milhões. Nesse período, ela pagou de impostos míseros US$ 100 por dia.

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Em 1965, Buffett assumiu a empresa, mudou de rota e investiu todo o caixa disponível numa variedade de bons negócios, a maior parte dos quais floresceu ao longo dos anos seguintes. Nas suas palavras, “a soma do reinvestimento dos dividendos com o poder da capitalização exerceu sua mágica, e os acionistas prosperaram”. Seu “sócio silencioso”, o Tesouro americano, passou a coletar não mais U$ 100, mas US$ 9 milhões por dia.

Buffett atribui todo esse sucesso ao fato da companhia desenvolver suas atividades nos EUA e pede para o leitor, sempre que passar por uma bandeira americana, parar e agradecer. E não cansa de repetir que nunca se deve apostar contra a América.

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Parte importante do valor criado foi através das atividades de seguro do grupo, iniciadas com a compra em 1967 da National Indemnity, e que hoje são responsáveis pelo maior volume de float dessa indústria no mundo, algo como US$ 147 bilhões. São esses recursos que não pertencem a ele, mas que a companhia carrega e pode investir, que mais atraem Buffett para esse business. As seguradoras têm um volume grande de entradas e saídas a cada dia, mas o que fica como float é relativamente estável, permitindo que se invista com horizonte de longo prazo. E embora haverá anos em que a atividade de seguro apresentará prejuízo operacional, se bem gerida terá lucro num número muito maior de vezes.

Buffett conta que comandou a atividade por 15 anos (“sem êxito”, segundo ele). Numa manhã de sábado, quando estava em seu escritório abrindo a correspondência da semana, um jovem entrou dizendo que adoraria gerir o negócio de seguros da Berkshire Hathaway. Buffett perguntou qual era a sua experiência com seguros. “Nenhuma”, disse ele, ouvindo de resposta: “Bom, ninguém é perfeito. Eu também nunca tinha tido um negócio de seguros, então não custa tentar”. Ajit Jain saiu dali contratado e hoje, 35 anos depois, continua como o responsável pela área.

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Com o que Buffett mais aprendeu

Dar aulas sobre investimentos para estudantes de todas as idades foi uma atividade a que Buffett se dedicou ao longo das últimas décadas. Acredita que ensinar, assim como escrever, ajuda a desenvolver e deixar os pensamentos mais claros. É o que Munger chama de o “Efeito Orangotango”: se se sentar com um orangotango e lhe explicar da forma mais cuidadosa possível uma ideia sua, pode deixar o primata inteiramente confuso, mas vai com certeza sair da conversa com o pensamento mais organizado e claro.

Dos alunos, os preferidos são os universitários. Para eles, costuma recomendar que busquem fazer o que gostam e com as pessoas com quem querem estar. Realidades econômicas na maior parte das vezes não permitem esse luxo, mas o importante é persistir nessa busca.

Mas a melhor dica que ele deu esse ano não foi na carta, mas sim na reunião anual, que ocorreu no último sábado (30), em Omaha, Nebraska. Na seção de perguntas e respostas, uma jovem pediu para ele indicar uma ação para se proteger da inflação nos próximos anos. Após dar uma gargalhada, Buffett aconselhou-a a se dedicar ao que gosta e se aprimorar ao máximo. Segundo ele, se alguém for um ótimo médico ou advogado ou o melhor em sua atividade, não faz diferença de quanto é a inflação ou quanto a moeda está perdendo de poder de compra, pois sempre vão lhe pagar pelo seu talento e o que tem para entregar.

“O melhor que você pode fazer é ser excepcionalmente boa em alguma coisa”, disse ele. “Quaisquer que sejam as suas habilidades, elas não podem ser tiradas de você, seja pela inflação ou por qualquer outra coisa. O melhor investimento é no seu próprio desenvolvimento.”

Fernando Barrozo do Amaral é sócio da Legend Wealth Management. Clique aqui para saber mais sobre o autor

--Esta coluna não reflete necessariamente a opinião dos conselhos editoriais da Bloomberg Línea, da Falic Media ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Fernando Barrozo

Fernando Barrozo

Fernando Barrozo tem 30 anos de experiência no mercado financeiro, sendo os últimos 19 dedicados à gestão de patrimônios de famílias. Coordenou a fusão da Arsenal Investimentos com a divisão de wealth management da Gávea Investimentos, que foi posteriormente adquirida pelo banco JPMorgan. Em 2017, fundou a GGP Family Office, onde atuou como CEO.