Criptos ajudam minorias a ter acesso ao sistema financeiro

Dificuldade de participar do mercado tradicional tem levado negros e membros da comunidade LGBTQIA+ a buscar inclusão pelo segmento cripto

Dificuldade de participar do mercado tradicional tem levado negros e membros da comunidade LGBTQIA+ a buscar inclusão pelo segmento cripto
Tempo de leitura: 3 minutos

Por Gino Matos para Mercado Bitcoin

São Paulo — Em agosto de 2021, um levantamento da empresa americana de pesquisa e análise de mercado Harris Poll identificou que os conceitos de descentralização e liberdade característicos do mercado de criptomoedas estão atraindo minorias, como negros e a comunidade LGBTQIA+.

A pesquisa avaliou a população americana e apontou que 25% das pessoas LGBTQIA+ possuem criptomoedas, enquanto apenas 13% das demais, nos Estados Unidos, investem nessa classe de ativos. Ao mesmo tempo, investidores negros representam 23% do total, enquanto hispânicos somam 17%, sendo os números significativamente maiores que os 11% da população branca do país posicionada em cripto.

Além disso, 66% dos hispânicos, 59% do público LGBTQIA+ e 58% dos negros declararam que se sentem rejeitados pelo sistema financeiro americano. Euclides Manuel, entusiasta das criptomoedas e um dos fundadores da comunidade Bitcoin Angola, avalia que o mercado cripto é, de fato, mais inclusivo, e não apenas nos Estados Unidos.

“Em Angola, por exemplo, é necessário fornecer documentos, pagar uma taxa de abertura e comissões mensais ou semestrais para abrir uma conta bancária “, explica. “Tudo isso dificulta o acesso da população a serviços financeiros, como crédito, poupança ou para transferir dinheiro, já que 71% dos angolanos não possuem conta bancária, segundo dados do Banco Nacional de Angola”, completa Manuel.

Na avaliação do membro da Bitcoin Angola, a inclusão no mercado cripto será contínua com o passar dos anos, principalmente nas economias emergentes, à medida que as pessoas tiverem mais acesso ao meio digital. “A população africana, por exemplo, é jovem e aberta a novas tecnologias. Ainda há pouco conhecimento sobre moedas digitais em razão da baixa inclusão digital, mas esse problema tem sido resolvido ao longo dos anos.”

Orientação sexual criminalizada

Dados da Associação Internacional de Gays e Lésbicas indicam que 69 países ao redor do mundo criminalizam relações sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em entrevista ao portal Cointelegraph, em agosto de 2021, a especialista em economia de tokens Eloisa Marchesoni destacou que, nessas regiões, os ativos digitais são uma forma de combater a censura e transferir valores quando a discriminação impede o acesso ao sistema financeiro.

Jarrel James, integrante do cLabs, disse, na mesma ocasião, que a tecnologia blockchain e os ativos digitais têm papel fundamental para aproximar, de forma segura, a comunidade LGBTQIA+. “Há muitas possibilidades em utilizar transações de pessoa para pessoa, como financiar uma cirurgia para reafirmação de gênero de forma anônima ou ajudar em situações de opressão”, diz James.

Recepção tende a aumentar

Como membro da comunidade Bitcoin Angola, Manuel produz conteúdos educativos sobre criptoativos. Segundo ele, em termos de recepção estritamente na parte de produção de conteúdo, esse mercado não difere do tradicional. Ressalta, porém, que o segmento de ativos digitais é mais dinâmico e, por isso, sempre existem mais caminhos a serem explorados.

“Todos os meses há algo novo, com programadores e empreendedores em busca da próxima tendência do mercado. Por isso, acredito que produzir conteúdo ligado a criptomoedas é mais animador do que falar sobre o mercado tradicional”, diz.

Problema de gênero persiste

Apesar da inclusão de minorias, as criptomoedas não só perpetuam a disparidade de gêneros quando se trata de investidores, mas agravam essa métrica. Enquanto 40% dos homens investem em ações, comparados a 24% das mulheres, a diferença entre aqueles que aplicam em moedas digitais é superior ao dobro das investidoras nesse mercado – 16% contra 7%, respectivamente.

Liliane Tie, integrante da iniciativa Women in Blockchain Brasil, acredita que o mercado de criptomoedas pode se tornar mais inclusivo para as mulheres. Ela cita movimentos na última década como Occupy Wall Street, Me Too e Black Lives Matter, que, diz, “ganharam as redes e as ruas após a crise de 2008″.

“Em muitos países, avanços subsequentes foram reflexo de pessoas e organizações que começaram a se mobilizar pela reparação de injustiças. Nesse círculo virtuoso de mudanças, vimos multiplicar também ações por mais mulheres na tecnologia e no mercado financeiro, o que nos dá pistas do porquê de os números terem melhorado.”

Além disso, ela acrescenta que o atual cenário de representatividade é animador, com cada vez mais mulheres se interessando por criptomoedas, especialmente NFTs, que atraem o público feminino que busca monetizar seus trabalhos artísticos. “Temos referências que vão de Paris Hilton a Elza Soares [falecida no último 20 de janeiro], e isso é importante para lembrarmos que, para que a utopia da Web 3.0 se concretize, precisamos continuar buscando um mundo mais justo fora dela também.”

Liliane conclui salientando, contudo, que os números ainda estão longe de serem considerados satisfatórios, especialmente no Brasil, onde a maioria da população é composta por mulheres negras.

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